segunda-feira, 30 de março de 2026

Blue Monday

 

 

 

Foto: Guilherme Figueiredo 2003

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Segunda-feira. Tomo o banal autocarro a caminho do terminal onde passo o dia burocrático. Ainda a emergir das águas opacas do sono, resgato à luz fluorescente da cabine os fragmentos de uma recordação inquinada pela fealdade do panorama para lá da humidade do vidro azulado. Ontem, num sonho aquático, deleitei-me com a memória do prazer de uma tarde de amor num quarto com as venezianas abertas para o rumor do pátio da esplanada da Ópera. Com a saudade de cálidos entardeceres refulgindo a minha sombra derreada pela paixão da beleza espelhada no mármore dos templos. Com a miragem de San Michele, a ilha dos mortos, com as suas muralhas de osso e pedra sobre a laguna. Uma morte doce adornada pela eternidade da grande Arte? Romantizada. Toma-me a nostalgia da partilha de um Campari enamorado, rindo dos que desfilam na passerelle da Rialto! A chuva a escorrer no vidro temperado com martelo de emergência para quebrar em caso de desespero faz-me sorrir na evocação da lágrima cativa na extasiada adoração do ícone bizantino no altar da Madonna della Salute. Quão distante está a Punta della Dogana! Longe deste miasma maligno de bruteza encardida a caminho da cidade num rochedo que se julga descoberto há seiscentos anos, infelizmente não por Venezianos desenganados a caminho do Oriente. Desfila pela tela do autocarro um panorama de ruínas habitadas, prédios descarnados, ruas soturnas à sombra de abortos urbanísticos. A moldura humana não é melhor. Um povo desfigurado pela obesidade adquirida, de uma fealdade genética sem outro rumo que não seja o de perpetuar a espécie com tais deformidades. Atravessam onde calha. Deitam impropérios guturais às buzinadelas ou às travagens, em cima da passadeira de peões, para onde mergulham com a mesma naturalidade com que atiram lixo para o calhau. De chinelos gastos, de camisa de alças, com roupa surrada. As mulheres, fardadas com leggings, como baleias arrojadas à terra, ostentam a sua gordura na ida à Poupadinha mais próxima comprar sumos espessos de tanto açúcar. Os homens encostados à esquina não são jornaleiros, apenas taberneiros. Nos arrabaldes de uma quimérica capital europeia da cultura não falta rela diversidade na subcultura da prostituição. Jovens envelhecidas sem salvação na estrada esperam à porta de um armazém devoluto por clientes para o broche. Rapazes travestidos dão o cu pela próxima dose de sintética a consumir, ali perto, numa moradia abandonada e tomada pelo vício. Pedintes e indigentes no centro de uma das cidades mais seguras nas palavras do inquilino do Palácio do Governo. Não fazem mal a ninguém, só incomodam e poluem o cartaz turístico. Apesar da hora burguesa há boémios pelas ruas. É o Terror! Sonâmbulos no tremor da demanda do dragão sintético. Não faltam borrachos miserentos com o seu pacote de vinho comprado num supermercado modelo que assegura, economicamente, o Direito Fundamental ao pingo doce da desgraça. Mais discretos são os doutores e empregados de escritório a sair dos cafés, depois do segundo risco da manhã. À porta das masmorras ajuntamento de ciganos locais e em trânsito. Adiante turistas arianos aos magotes para embarcarem num zodíaco e zarparem para a atividade de assediar baleias. Talvez um ou outro tenha um acidente com tubarões para vingar os seus pares cetáceos. Na marginal, obra original do Estado Novo, hoje vandalizada pelos parvenus abrileiros, caixinhas de gelados, um carrossel encardido, e a cópia ofensiva da escadaria da casa Malaparte sobre as falidas Portas do Mar. Junto à esquadra da PSP vegetam clientes regulares cuspidos para as ruas com termo de identidade e residência. De vez em quando há festival de MMA caipira e inter-género a que se pode assistir gratuitamente, sem reserva de bilhete, na plateia do Café Royal. Na paragem do autocarro recomenda-se prudência na saída: os eflúvios de gordura estão por todo o lado. Derramados como lava do lixo que é a principal atividade produtiva desta terra, de tal forma que em sua homenagem foi erigida a pira funerária da Queimadora pelos democratas locais. Nem apetece parar para tomar café. Sigo envergonhado com a certeza de que o paraíso europeu da sustentabilidade, e outras mitomanias compradas por baixo da mesa, é, ainda, e por muito tempo, um calhau atavicamente atrasado, lúgubre, triste, cinzento, deprimente. Ocorre-me a estrofe do poeta : O Melhor desta Terra é o Mar. Salva-se o Mar e o caminho de regresso a casa na carreira de Rabo de Peixe.

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JNAS, Estado Livre de Santa Rita, 30 de Março, 2026.


domingo, 22 de fevereiro de 2026

O Labirinto de Veneza

 

« - Sem dúvida quererá ver o jardim?

- O jardim?

- O jardim dos caminhos que se bifurcam.»



Atravesso o húmido caminho que me separa da ilha maior e estou num jardim de outros tantos sentidos. Algures, no interior do labirinto. Sei que está aqui, sob os pés demolhados no cais alagadiço pela maré alta. Não o vejo. Sinto-o, furtivo, atrás do véu da névoa que vem do Oriente. Camuflado pela cegueira atmosférica do scirocco que inunda as ilhas de uma poalha dourada. Talvez seja visível do altíssimo. Dizem que o livro aberto, no meio do jardim, com o nome que se esconde no labirinto, só se revela visto do céu. Do campanário imagino que a vista alcance os caracteres que o compõem, juntando as letras desenhadas a verde no campo do templo dedicado a São Jorge. Homónimo santo daquele que os buxos entrelaçados evocam: Borges. Jorge Luís Borges, poeta e escritor universal, vindo dessa vaga gente que forçou as muralhas do Oriente e ao mar se deu, tem aqui um jardim com o seu nome num labirinto cercado de ciprestes. Do céu para a terra o divino e os mortais, alcandorados no campanário, lêem o seu nome na urdidura de um labirinto em forma de livro aberto. Nos anos oitenta, já cego, crepuscular como Argos, Borges deixou a memória de um Atlas sentimental com o espírito dos lugares por onde passara sem os ver. Maria Kodama ilustrou esse livro «numa série de fotografias explicadas por uma epígrafe», para citar o prólogo do escritor argentino, numa obra que se destinava à memória da partilha «com alegria e espanto do achado de sons, de idiomas, de crepúsculos, de jardins», dos lugares por onde tinha feito, na companhia de Kodama, o «grato decurso da residência na terra». O labirinto desta ilha em frente a outra igualmente labiríntica, como um espelho de caminhos que se bifurcam «perpetuamente na direção de inúmeros futuros», é a homenagem a relembrar o grande amor do escritor por este lugar que é «ponto onde se encontram o Ocidente e o Oriente, os dias e as noites de gerações hoje esquecidas». Este labirinto é uma homenagem ao eterno Borges, evocando o célebre conto O Jardim Dos Caminhos Que Se Bifurcam onde um narrador improvável demanda decifrar a obra de um antepassado que ambicionara «edificar um labirinto em que se perdessem todos os homens, num labirinto de labirintos, num sinuoso labirinto crescente que abrangesse o passado e o porvir e que implicasse de algum modo os astros». O que busca o narrador desse conto, um espião condenado a uma irrevogável morte na forca, não é o pátio central do labirinto mas o sinal secreto que decifrará o enigma inextricável capaz de fulminar uma cidade inimiga. Artifícios Borgianos que nos transportam para o centro das suas obras. Livros que são labirintos feitos de letras. Aqui os labirintos são feitos de pedra e de fábulas, de cristais e de crepúsculos, encerrados na capital dos mistérios do Adriático : Veneza.

 

De frente para a Praça de São Marcos repousa tranquila a pequena ilha de San Giorgio Maggiore, dominada pela iridiscente Basílica que dá nome a este torrão de terra que abriga o templo de culto a São Jorge e, nos seus claustros, a homenagem a um autor de culto. Mais de três mil buxos plantados, serpenteando por cerca de um quilómetro, desenham não só o nome de Borges num livro aberto mas também outros símbolos iconográficos da obra do escritor. Tudo à sombra vigilante do campanário da Basílica de San Giorgio Maggiore, na também chamada, por óbvias razões, Ilha dos Ciprestes. Ocupada por Romanos – que a conheciam por Insula Memmia - lugar de salinas em tempos já perdidos, a ilha foi doada em 982 ao monge Giovanni Morosini. Com espírito messiânico os monges drenaram os pântanos e em 998 sobre as águas ergueram um Mosteiro Beneditino consagrando a ilha ao culto de São Jorge. 

 


Não é original o que hoje vemos como parte do horizonte aquático da Praça de São Marcos. Como num mito do eterno retorno vários templos se edificaram em cima de ruínas de outros. Sobre a modesta e perdida igreja de madeira, que se diz ali existido no século VII, naquele mesmo lugar, outras foram acrescentadas como um imenso palimpsesto de pedra. Terramotos e incêndios foram destruindo a obra do Homem e o que hoje vemos é a última peça desse jogo que permanece incólume à fúria dos elementos. É a fachada da Basílica desenhada pelo célebre Andrea Palladio e, como tantas outras em Veneza, lugar de recolhimento de intemporais quadros de Tintoretto. Se o lugar permanece imune às catástrofes desde o século XV não escapou porém à fúria dos homens e da sua ganância. Também aqui o saque de Napoleão espoliou um dos melhores tesouros da ilha: As Bodas de Caná de Veronese. Antes da praga francesa decorava o monumental refeitório do mosteiro da ilha até que, em 1797, foi saqueado por Napoleão. Hoje está exposto no Louvre com a magnificência de ser a maior pintura da coleção do museu. Nunca os franceses transigiram que fosse devolvida a Veneza. Permanece em Paris como joia roubada durante a ocupação francesa que, além do icónico Veronese, pilhou livros raros, arte sacra, joias mundanas ou consagradas como as que foram esbulhadas da Pala D’Oro da Basílica de São Marcos. Muitos tesouros Venezianos não tiveram a sorte dos Cavalos de São Marcos. A imponente quadriga de bronze, também conhecida por cavalos de Constantino. Mitológicas esculturas cujas deambulações coercivas vaticinaram sempre a queda de Impérios. Os cavalos errantes vindos da Grécia, antes da era Cristã, parece que já andaram por toda a parte. Sempre que foram movidos um Império caiu. Estiveram em Roma e Constantinopla, que soçobraram depois de os terem como troféus. Também Napoleão levou a quadriga de São Marcos para a capital do seu Império, postando-as, com arrogância, em Paris no Arco do Triunfo do Carrossel como sentinelas do Louvre e dos seus tesouros. Com a queda de Napoleão e do seu Império, o Imperador Habsburgo, cujo Império Austríaco no Adriático ia de Veneza até Trieste, e a quem calhara parte dos salvados napoleónicos, porventura querendo contrariar a maldição dos cavalos de bronze, devolveu as esculturas a Veneza. Aí permanecem, no seu lugar da Loggia dei Cavalli, desde o desagravo de Francisco I da Áustria. Os originais na cave e as réplicas no frontispício da Basílica de São Marcos. Sósias no centro de um labirinto tão intrincado, com tantas pontes quantas codas numa partitura barroca, como um jardim de mil bifurcações onde um homem se perde como um leitor que se dissolve no rio imortal de Borges.

 

Jorge Luís Borges, Atlas, edição da Quetzal 

fotografias de Maria Kodama

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JNAS, Estado Livre de Santa Rita, 22 Fevereiro, 2026.


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

O Sentido da Vida

 

Retiro-me estrategicamente na oportunidade da trégua. Encosto o corpo no pilar na estrema do campo e fico entrincheirado a recuperar de cócoras. Falta-me o ar e pelo corpo torrentes filiformes de suor escorrem-me do torso até aos pés fincados no recolhimento. Vejo-o assestado avançar no meu sentido, arrastando o fardamento desalinhado com o seu andar trôpego a pisar o pano das calças. Aproxima-se, senta-se ao meu lado pergunta-me: «O Senhor sente-se bem?» Estranho o altruísmo e respondo que sim com um silente aceno de cabeça. Com um sorriso idiota volta à carga e verbaliza a interrogação atávica da condição humana: «Para o Senhor qual é o sentido da vida?» Julgo estar num sonho em cima de um palco de teatro do absurdo! A realidade supera sem aviso a ficção e o jovem, cujo nome ignoro, é de carne e osso como eu. Sinto uma fúria a escaldar-me e vontade de o insultar, descarregando todo o meu cinismo, cepticismo, niilismo. Todo o catálogo do escol dos mestres: de Freud a Nietzsche com epílogo no supremo Houellebecq. O filósofo do übermensch pregou que nada possuímos além de metáforas gastas e que as verdades são ilusões de uma moral de mentiras. Não vou responder com essas derivas a quem tem estampado no olhar o vazio de uma página em branco. O cadete não é insolente é apenas um néscio saloio. Responder-lhe com a bruteza de inexistência de sentido da vida, contar-lhe que o mundo é uma coutada onde o homem é o lobo do homem, um eterno estado de bellum omnium contra omnes, seria injusto e inútil. Não compreenderia. É um mancebo ingénuo com ar entre as orelhas vindo dos cerrados das vacas. Não sei o que faz aqui. Veio na ilusão de engrandecer facilmente com truques misteriosos de uns golpes orientais. Também os legionários romanos se alistavam julgando que iam ver o mundo para afinal se quedarem em batalha atrás de batalha. Assim é o mundo: uma incessante e ancestral guerra de todos contra todos com o sentido único e egoísta de sobreviver. A ira pela estupidez da pergunta, pelo despropósito do lugar, pelo fosso que separa a minha idade daquela imberbe existência, foi-se dissipando na nuvem de calor que evolava da transpiração a arrefecer o sangue. Tudo passa, até a arrogância da estupidez ingénua da juventude. A interrogação é universal. A resposta é única e individual. No termo de uma vida de pesquisa, estudo, ensaio e psicanálise, o próprio Freud rendeu-se. Sobre a mesma demanda escreveu com inusitado desalento que a pergunta pelo sentido da vida já foi colocada inúmeras vezes e ainda não obteve e talvez nem sequer admita uma resposta sequer satisfatória. Olho para o rapaz e concluo que é mais jovem ainda do que os meus filhos. Não vou ao ponto da crueldade de convocar Houllebecq e a sua escatologia da decadência inevitável do corpo, da monstruosidade da extensão da luta em sociedade, da descida ao inferno dos outros que minam o caminho elementar da mais pequena partícula efémera de felicidade. Estou sem fôlego. Venho de duas barragens violentas de luta corpo a corpo. Sinto-me indulgente e não ofensivo. O corpo que vocaliza a pergunta numa cabeça falante não seria capaz de processar uma palavra das minhas reflexões. Nem vale a pena. Estará aqui por pouco tempo. Em breve sucumbirá. Seguramente irá desertar. Tem cinto branco e pertence a uma geração alimentada na mentira de tudo ser fácil. Seria muito difícil explicar-lhe que não há sentido no viver. Que a vida é uma luta entre os Deuses Eros e Tánatos nas mãos de quem somos bonecos de trapos. Uma luta sempiterna entre o instinto vital e o instinto destrutivo presente na espécie humana desde que emergiu do lodo. Essa luta é a essência da vida. Fumegante e ainda a resfolegar enxugo a fronte. Uma linha de sangue mancha a manga do judogi. Tenho no sobrolho um lanho. Os músculos inertes pelo esforço. Na jugular o sangue bate com estrondo. A cicatriz da lesão no ombro a latejar. No randori anterior uma derrota inelutável e um empate inesperado noutra frente. Num sorriso recordo o dia em que deixei inconsciente com um estrangulamento o “urso” que me esmagou e com quem perdi mil vezes. No mesmo instante ocorre-me o contentamento de ter presente o empate há instantes com quem há menos de um ano me arrancara o úmero do seu lugar. Homo Homini Lupus, diz a filosofia. A realidade é tão mais térrea.«A vida é luta.» É só o que respondo. Digo-o, tendo presente que o tatami é metáfora dessa regra e que tem as suas regras na grande ilusão da domesticação da besta humana. Duvido que o jovem compreenda que o sentido não é a prevalência do mais forte, mas daquele que nunca desiste de lutar contra a sua própria natureza. Tudo passa. Até a ignorância estúpida dos verdes anos. No outono da vida fica tatuada a condescendência, onde antes imperava a primaveril arrogância da eternidade.

JNAS, Estado Livre de Santa Rita, 5 Fevereiro, 2026

Freud – O Mal-Estar na Civilização – Ed. Relógio D’ Água

Nietzsche – Acerca da Verdade e da Mentira no Sentido Extra Moral – Ed. Companhia das Ilhas


domingo, 7 de dezembro de 2025

O Tempo



É um dos maiores mistérios da existência. Santo Agostinho, nas suas Confissões, perante a demanda do que era o tempo suspirou: «Se ninguém mo perguntar, eu sei; se o quiser explicar a quem me pergunta, já não sei». No princípio havia o Verbo, depois o Verbo fez-se homem e todo o homem tem o seu tempo contado. Só os animais são imortais, porque ignoram o tempo. Aos homens os Deuses dão a luz à nascença e o futuro expande-se na infantil ilusão de que a treva da noite eterna está a anos-luz de nós. A meio caminho, conscientes do que nos resta pela álea da providência, é-nos revelada a verdade: ninguém sabe para onde o tempo vai. Who Nows Where The Time Goes? À interrogação, na voz de Nina Simone, devemos responder com o refrão da mesma canção: I Do Not Count The Time. Ninguém sabe para onde vai. Tempus Fugit Irreparabile. Marguerite Yourcenar, nas suas memórias, confessa o absurdo de moer o tempo quando no fim «como as nuvens no céu vazio, formamo-nos e dissipamo-nos sobre o mesmo fundo de esquecimento». Somos tempo e espaço e interrogamo-nos sempre como aquele influi na matéria física e orgânica deste e de outros mundos. Inevitável a memória de Jorge Luís Borges e dos seus labirintos circulares onde o tempo se repete em eterno retorno. Inolvidável a tese e antítese dos teólogos de Borges, em particular da seita dos monótonos, ou anulares, para quem a «história é um círculo e que nada é que não tenha sido ou não será». A síntese da roda do tempo circular e a fantasia de nos encontrarmos com outro eu noutro tempo no mesmo lugar. Também em Borges a referência a Hobbes que diz a Eternidade ser a quietude do tempo presente. Estamos hoje numa era de relógios atómicos que cronometram a vida planetária com uma sincronização que permite, entre outras comodidades, o GPS e a Internet. O relógio atómico da NASA em dez anos tem um atraso inferior a um microssegundo, o que significa que para verificarmos estar um segundo atrasado precisamos de esperar a eternidade de dez milhões de anos! Amanhã a transição é para o relógio nuclear e interrogamo-nos novamente se este nos aproximará do grande relojoeiro do Universo quando nos lançamos na demanda do bosão de Higgs ou, se preferirmos, da «partícula de Deus», porque diz-se que aquela poalha subatómica está em todo o espaço ao mesmo tempo!

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JNAS, Estado Livre de Santa Rita, 7 de Dezembro, 2025


domingo, 9 de novembro de 2025

Stolpersteine - As Pedras da Memória

 

 
Depois da queda do Muro de Berlim, a cidade e o mundo viram nas pedras derrubadas e nas ruínas do muro o sinal do fim da História. Para que a Memória não fosse triturada pelos reluzentes edifícios de pós-modernidade que ascendiam nos céus de Berlim, faiscantes troncos de aço escovado com brilhantes fachadas de vidro temperado, houve a urgência de fincar os pés na terra com a recordação perene de outras vidas. Pela cidade de Berlim, entre pedaços museológicos do muro que a dividiu em dois blocos, quem estiver atento verá linhas que hoje marcam o lugar antes barrado pelo muro e intrigantes pedras douradas espalhadas pela calçada sem um alinhamento lógico. A cada dia 9 de Novembro, verá com perplexidade alguns berlinenses ajoelhados ou sentados no chão, em reverencial silêncio, a lavar e a polir tais quadrados de calçada dourada! As Stolpersteine são pedras de calçada em latão com 10cmX10cm, com um nome gravado e «o essencial da vida fenecida», como resumiu Jorge Luís Borges, servindo de inscrição sepulcral de pessoas de quem apenas sobrou o nome. Diz a tradição Judaica que uma vez esquecido o nome a pessoa entra no oblívio sem retorno. Gunter Demnig, artista alemão, quis imortalizar os nomes das vítimas da longa noite nazi que foram levadas da cidade para se transformarem em cinzas nos fornos de cremação industrial de Auschwitz e de outros infames campos de processamento da morte. Hoje as Stolpersteine estão espalhadas pela cidade de Berlim na forma de pedras de latão encaixadas nos passeios e nas portarias dos prédios onde habitavam, ou tinham o seu negócio ou trabalho, concretas e individuais pessoas que foram brutalizadas e mortas pelos nazis. A ideia era gravar-lhes o nome no chão para que nunca fossem esquecidas e perdidas nos números abstratos das vítimas da Shoa. O projecto de Gunter Demnig começou em 1996 na Oranienstrasse, no outrora efervescente bairro judeu de Berlim com a sua Sinagoga monumental, com as primeiras pedras de um projeto à margem da lei, sem licenças nem autorização de ninguém. Uma instalação libertária e individual do artista que escolheu a forma da pedra de calçada de Berlim numa profunda subliminaridade às pedras que foram arrancadas e atiradas às lojas e estabelecimentos de judeus na noite de 9 de Novembro de 1938. Na funesta Kristallnacht de 1938 bandos das SA – Sturmabteilungen, as tropas de assalto dos camisas castanhas nazis e da Juventude Hitleriana lideraram a populaça num festim de destruição, caça e morte. Em Berlim, e noutras cidades do Reich, foram incendiadas Sinagogas, saqueadas casas habitadas por judeus, apedrejadas lojas de judeus, profanados cemitérios judaicos e no saldo final estima-se que foram linchadas 91 pessoas. Os bombeiros tiveram ordem para deixar arder e a polícia para não interferir com a vontade do povo. Noite de Cristal assim celebrada pelos nazis e seus entusiastas pelos rastos de vidros estilhaçados de todas as lojas e negócios de judeus marcadas com suásticas e destruídas à pedrada com pedras de calçada. Hoje as Stolpersteine evocam as vítimas do holocausto em pedras de latão com a inscrição «Aqui Viveu», seguida do nome da pessoa em destaque, data e local do nascimento, o campo de concentração para onde foi sequestrada e, por fim, a data da sua morte. O projeto de Gunter Demnig começou com 51 pedras. Hoje, em Berlim, são mais de 10 mil e em toda a Europa aproximam-se de 120 mil, naquele que é o maior memorial descentralizado do mundo, lembrando todos os dias a quem passa um nome de alguém chacinado pelos nazis. Uma instalação montada na clandestinidade é hoje celebrada pelos berlinenses que puxam o lustro das pedras de latão polindo-as com reverência a cada dia 9 de Novembro em memória do nome inscrito. Também há nomes portugueses nesses memoriais. Não porque tivessem sido enviados para os campos de concentração por Portugal, pois Salazar nunca seguiu essa barbárie, nem foi vassalo nazi como outros em Espanha, França, Itália, mas sim pelo infortúnio de serem judeus fora de Portugal, expatriados em terras onde se julgavam a salvo. Como Tomás Vieira – apelido em Portugal de consabidas raízes judaicas – um algarvio que emigrara com mulher e filhas para Paris, a capital da pátria da Liberdade, vivendo em paz até 1944, quando, na sua mercearia onde trabalhava, foi preso pelos franceses e entregue aos alemães, vindo a morrer na Áustria no campo de Mauthausen. Na freguesia de Paderne, nestes tempos em que a escuridão se adensa pela ameaça de novas submissões, Tomás Vieira terá uma Stolpersteine à porta da casa onde nasceu, a juntar à imensa rede europeia que lembra o dito judeu: uma pessoa só é esquecida quando o seu nome se perde. 
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JNAS, Estado Livre de Santa Rita, 9 Novembro, 2025