domingo, 22 de fevereiro de 2026

O Labirinto de Veneza

 

« - Sem dúvida quererá ver o jardim?

- O jardim?

- O jardim dos caminhos que se bifurcam.»



Atravesso o húmido caminho que me separa da ilha maior e estou num jardim de outros tantos sentidos. Algures, no interior do labirinto. Sei que está aqui, sob os pés demolhados no cais alagadiço pela maré alta. Não o vejo. Sinto-o, furtivo, atrás do véu da névoa que vem do Oriente. Camuflado pela cegueira atmosférica do scirocco que inunda as ilhas de uma poalha dourada. Talvez seja visível do altíssimo. Dizem que o livro aberto, no meio do jardim, com o nome que se esconde no labirinto, só se revela visto do céu. Do campanário imagino que a vista alcance os caracteres que o compõem, juntando as letras desenhadas a verde no campo do templo dedicado a São Jorge. Homónimo santo daquele que os buxos entrelaçados evocam: Borges. Jorge Luís Borges, poeta e escritor universal, vindo dessa vaga gente que forçou as muralhas do Oriente e ao mar se deu, tem aqui um jardim com o seu nome num labirinto cercado de ciprestes. Do céu para a terra o divino e os mortais, alcandorados no campanário, lêem o seu nome na urdidura de um labirinto em forma de livro aberto. Nos anos oitenta, já cego, crepuscular como Argos, Borges deixou a memória de um Atlas sentimental com o espírito dos lugares por onde passara sem os ver. Maria Kodama ilustrou esse livro «numa série de fotografias explicadas por uma epígrafe», para citar o prólogo do escritor argentino, numa obra que se destinava à memória da partilha «com alegria e espanto do achado de sons, de idiomas, de crepúsculos, de jardins», dos lugares por onde tinha feito, na companhia de Kodama, o «grato decurso da residência na terra». O labirinto desta ilha em frente a outra igualmente labiríntica, como um espelho de caminhos que se bifurcam «perpetuamente na direção de inúmeros futuros», é a homenagem a relembrar o grande amor do escritor por este lugar que é «ponto onde se encontram o Ocidente e o Oriente, os dias e as noites de gerações hoje esquecidas». Este labirinto é uma homenagem ao eterno Borges, evocando o célebre conto O Jardim Dos Caminhos Que Se Bifurcam onde um narrador improvável demanda decifrar a obra de um antepassado que ambicionara «edificar um labirinto em que se perdessem todos os homens, num labirinto de labirintos, num sinuoso labirinto crescente que abrangesse o passado e o porvir e que implicasse de algum modo os astros». O que busca o narrador desse conto, um espião condenado a uma irrevogável morte na forca, não é o pátio central do labirinto mas o sinal secreto que decifrará o enigma inextricável capaz de fulminar uma cidade inimiga. Artifícios Borgianos que nos transportam para o centro das suas obras. Livros que são labirintos feitos de letras. Aqui os labirintos são feitos de pedra e de fábulas, de cristais e de crepúsculos, encerrados na capital dos mistérios do Adriático : Veneza.

 

De frente para a Praça de São Marcos repousa tranquila a pequena ilha de San Giorgio Maggiore, dominada pela iridiscente Basílica que dá nome a este torrão de terra que abriga o templo de culto a São Jorge e, nos seus claustros, a homenagem a um autor de culto. Mais de três mil buxos plantados, serpenteando por cerca de um quilómetro, desenham não só o nome de Borges num livro aberto mas também outros símbolos iconográficos da obra do escritor. Tudo à sombra vigilante do campanário da Basílica de San Giorgio Maggiore, na também chamada, por óbvias razões, Ilha dos Ciprestes. Ocupada por Romanos – que a conheciam por Insula Memmia - lugar de salinas em tempos já perdidos, a ilha foi doada em 982 ao monge Giovanni Morosini. Com espírito messiânico os monges drenaram os pântanos e em 998 sobre as águas ergueram um Mosteiro Beneditino consagrando a ilha ao culto de São Jorge. 

 


Não é original o que hoje vemos como parte do horizonte aquático da Praça de São Marcos. Como num mito do eterno retorno vários templos se edificaram em cima de ruínas de outros. Sobre a modesta e perdida igreja de madeira, que se diz ali existido no século VII, naquele mesmo lugar, outras foram acrescentadas como um imenso palimpsesto de pedra. Terramotos e incêndios foram destruindo a obra do Homem e o que hoje vemos é a última peça desse jogo que permanece incólume à fúria dos elementos. É a fachada da Basílica desenhada pelo célebre Andrea Palladio e, como tantas outras em Veneza, lugar de recolhimento de intemporais quadros de Tintoretto. Se o lugar permanece imune às catástrofes desde o século XV não escapou porém à fúria dos homens e da sua ganância. Também aqui o saque de Napoleão espoliou um dos melhores tesouros da ilha: As Bodas de Caná de Veronese. Antes da praga francesa decorava o monumental refeitório do mosteiro da ilha até que, em 1797, foi saqueado por Napoleão. Hoje está exposto no Louvre com a magnificência de ser a maior pintura da coleção do museu. Nunca os franceses transigiram que fosse devolvida a Veneza. Permanece em Paris como joia roubada durante a ocupação francesa que, além do icónico Veronese, pilhou livros raros, arte sacra, joias mundanas ou consagradas como as que foram esbulhadas da Pala D’Oro da Basílica de São Marcos. Muitos tesouros Venezianos não tiveram a sorte dos Cavalos de São Marcos. A imponente quadriga de bronze, também conhecida por cavalos de Constantino. Mitológicas esculturas cujas deambulações coercivas vaticinaram sempre a queda de Impérios. Os cavalos errantes vindos da Grécia, antes da era Cristã, parece que já andaram por toda a parte. Sempre que foram movidos um Império caiu. Estiveram em Roma e Constantinopla, que soçobraram depois de os terem como troféus. Também Napoleão levou a quadriga de São Marcos para a capital do seu Império, postando-as, com arrogância, em Paris no Arco do Triunfo do Carrossel como sentinelas do Louvre e dos seus tesouros. Com a queda de Napoleão e do seu Império, o Imperador Habsburgo, cujo Império Austríaco no Adriático ia de Veneza até Trieste, e a quem calhara parte dos salvados napoleónicos, porventura querendo contrariar a maldição dos cavalos de bronze, devolveu as esculturas a Veneza. Aí permanecem, no seu lugar da Loggia dei Cavalli, desde o desagravo de Francisco I da Áustria. Os originais na cave e as réplicas no frontispício da Basílica de São Marcos. Sósias no centro de um labirinto tão intrincado, com tantas pontes quantas codas numa partitura barroca, como um jardim de mil bifurcações onde um homem se perde como um leitor que se dissolve no rio imortal de Borges.

 

Jorge Luís Borges, Atlas, edição da Quetzal 

fotografias de Maria Kodama

...

JNAS, Estado Livre de Santa Rita, 22 Fevereiro, 2026.


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

O Sentido da Vida

 

Retiro-me estrategicamente na oportunidade da trégua. Encosto o corpo no pilar na estrema do campo e fico entrincheirado a recuperar de cócoras. Falta-me o ar e pelo corpo torrentes filiformes de suor escorrem-me do torso até aos pés fincados no recolhimento. Vejo-o assestado avançar no meu sentido, arrastando o fardamento desalinhado com o seu andar trôpego a pisar o pano das calças. Aproxima-se, senta-se ao meu lado pergunta-me: «O Senhor sente-se bem?» Estranho o altruísmo e respondo que sim com um silente aceno de cabeça. Com um sorriso idiota volta à carga e verbaliza a interrogação atávica da condição humana: «Para o Senhor qual é o sentido da vida?» Julgo estar num sonho em cima de um palco de teatro do absurdo! A realidade supera sem aviso a ficção e o jovem, cujo nome ignoro, é de carne e osso como eu. Sinto uma fúria a escaldar-me e vontade de o insultar, descarregando todo o meu cinismo, cepticismo, niilismo. Todo o catálogo do escol dos mestres: de Freud a Nietzsche com epílogo no supremo Houellebecq. O filósofo do übermensch pregou que nada possuímos além de metáforas gastas e que as verdades são ilusões de uma moral de mentiras. Não vou responder com essas derivas a quem tem estampado no olhar o vazio de uma página em branco. O cadete não é insolente é apenas um néscio saloio. Responder-lhe com a bruteza de inexistência de sentido da vida, contar-lhe que o mundo é uma coutada onde o homem é o lobo do homem, um eterno estado de bellum omnium contra omnes, seria injusto e inútil. Não compreenderia. É um mancebo ingénuo com ar entre as orelhas vindo dos cerrados das vacas. Não sei o que faz aqui. Veio na ilusão de engrandecer facilmente com truques misteriosos de uns golpes orientais. Também os legionários romanos se alistavam julgando que iam ver o mundo para afinal se quedarem em batalha atrás de batalha. Assim é o mundo: uma incessante e ancestral guerra de todos contra todos com o sentido único e egoísta de sobreviver. A ira pela estupidez da pergunta, pelo despropósito do lugar, pelo fosso que separa a minha idade daquela imberbe existência, foi-se dissipando na nuvem de calor que evolava da transpiração a arrefecer o sangue. Tudo passa, até a arrogância da estupidez ingénua da juventude. A interrogação é universal. A resposta é única e individual. No termo de uma vida de pesquisa, estudo, ensaio e psicanálise, o próprio Freud rendeu-se. Sobre a mesma demanda escreveu com inusitado desalento que a pergunta pelo sentido da vida já foi colocada inúmeras vezes e ainda não obteve e talvez nem sequer admita uma resposta sequer satisfatória. Olho para o rapaz e concluo que é mais jovem ainda do que os meus filhos. Não vou ao ponto da crueldade de convocar Houllebecq e a sua escatologia da decadência inevitável do corpo, da monstruosidade da extensão da luta em sociedade, da descida ao inferno dos outros que minam o caminho elementar da mais pequena partícula efémera de felicidade. Estou sem fôlego. Venho de duas barragens violentas de luta corpo a corpo. Sinto-me indulgente e não ofensivo. O corpo que vocaliza a pergunta numa cabeça falante não seria capaz de processar uma palavra das minhas reflexões. Nem vale a pena. Estará aqui por pouco tempo. Em breve sucumbirá. Seguramente irá desertar. Tem cinto branco e pertence a uma geração alimentada na mentira de tudo ser fácil. Seria muito difícil explicar-lhe que não há sentido no viver. Que a vida é uma luta entre os Deuses Eros e Tánatos nas mãos de quem somos bonecos de trapos. Uma luta sempiterna entre o instinto vital e o instinto destrutivo presente na espécie humana desde que emergiu do lodo. Essa luta é a essência da vida. Fumegante e ainda a resfolegar enxugo a fronte. Uma linha de sangue mancha a manga do judogi. Tenho no sobrolho um lanho. Os músculos inertes pelo esforço. Na jugular o sangue bate com estrondo. A cicatriz da lesão no ombro a latejar. No randori anterior uma derrota inelutável e um empate inesperado noutra frente. Num sorriso recordo o dia em que deixei inconsciente com um estrangulamento o “urso” que me esmagou e com quem perdi mil vezes. No mesmo instante ocorre-me o contentamento de ter presente o empate há instantes com quem há menos de um ano me arrancara o úmero do seu lugar. Homo Homini Lupus, diz a filosofia. A realidade é tão mais térrea.«A vida é luta.» É só o que respondo. Digo-o, tendo presente que o tatami é metáfora dessa regra e que tem as suas regras na grande ilusão da domesticação da besta humana. Duvido que o jovem compreenda que o sentido não é a prevalência do mais forte, mas daquele que nunca desiste de lutar contra a sua própria natureza. Tudo passa. Até a ignorância estúpida dos verdes anos. No outono da vida fica tatuada a condescendência, onde antes imperava a primaveril arrogância da eternidade.

JNAS, Estado Livre de Santa Rita, 5 Fevereiro, 2026

Freud – O Mal-Estar na Civilização – Ed. Relógio D’ Água

Nietzsche – Acerca da Verdade e da Mentira no Sentido Extra Moral – Ed. Companhia das Ilhas