« - Sem dúvida quererá ver o jardim?
- O jardim?
- O jardim dos caminhos que se bifurcam.»
Atravesso o húmido caminho que me separa da ilha maior e estou num jardim de outros tantos sentidos. Algures, no interior do labirinto. Sei que está aqui, sob os pés demolhados no cais alagadiço pela maré alta. Não o vejo. Sinto-o, furtivo, atrás do véu da névoa que vem do Oriente. Camuflado pela cegueira atmosférica do scirocco que inunda as ilhas de uma poalha dourada. Talvez seja visível do altíssimo. Dizem que o livro aberto, no meio do jardim, com o nome que se esconde no labirinto, só se revela visto do céu. Do campanário imagino que a vista alcance os caracteres que o compõem, juntando as letras desenhadas a verde no campo do templo dedicado a São Jorge. Homónimo santo daquele que os buxos entrelaçados evocam: Borges. Jorge Luís Borges, poeta e escritor universal, vindo dessa vaga gente que forçou as muralhas do Oriente e ao mar se deu, tem aqui um jardim com o seu nome num labirinto cercado de ciprestes. Do céu para a terra o divino e os mortais, alcandorados no campanário, lêem o seu nome na urdidura de um labirinto em forma de livro aberto. Nos anos oitenta, já cego, crepuscular como Argos, Borges deixou a memória de um Atlas sentimental com o espírito dos lugares por onde passara sem os ver. Maria Kodama ilustrou esse livro «numa série de fotografias explicadas por uma epígrafe», para citar o prólogo do escritor argentino, numa obra que se destinava à memória da partilha «com alegria e espanto do achado de sons, de idiomas, de crepúsculos, de jardins», dos lugares por onde tinha feito, na companhia de Kodama, o «grato decurso da residência na terra». O labirinto desta ilha em frente a outra igualmente labiríntica, como um espelho de caminhos que se bifurcam «perpetuamente na direção de inúmeros futuros», é a homenagem a relembrar o grande amor do escritor por este lugar que é «ponto onde se encontram o Ocidente e o Oriente, os dias e as noites de gerações hoje esquecidas». Este labirinto é uma homenagem ao eterno Borges, evocando o célebre conto O Jardim Dos Caminhos Que Se Bifurcam onde um narrador improvável demanda decifrar a obra de um antepassado que ambicionara «edificar um labirinto em que se perdessem todos os homens, num labirinto de labirintos, num sinuoso labirinto crescente que abrangesse o passado e o porvir e que implicasse de algum modo os astros». O que busca o narrador desse conto, um espião condenado a uma irrevogável morte na forca, não é o pátio central do labirinto mas o sinal secreto que decifrará o enigma inextricável capaz de fulminar uma cidade inimiga. Artifícios Borgianos que nos transportam para o centro das suas obras. Livros que são labirintos feitos de letras. Aqui os labirintos são feitos de pedra e de fábulas, de cristais e de crepúsculos, encerrados na capital dos mistérios do Adriático : Veneza.
De frente para a Praça de São Marcos repousa tranquila a pequena ilha de San Giorgio Maggiore, dominada pela iridiscente Basílica que dá nome a este torrão de terra que abriga o templo de culto a São Jorge e, nos seus claustros, a homenagem a um autor de culto. Mais de três mil buxos plantados, serpenteando por cerca de um quilómetro, desenham não só o nome de Borges num livro aberto mas também outros símbolos iconográficos da obra do escritor. Tudo à sombra vigilante do campanário da Basílica de San Giorgio Maggiore, na também chamada, por óbvias razões, Ilha dos Ciprestes. Ocupada por Romanos – que a conheciam por Insula Memmia - lugar de salinas em tempos já perdidos, a ilha foi doada em 982 ao monge Giovanni Morosini. Com espírito messiânico os monges drenaram os pântanos e em 998 sobre as águas ergueram um Mosteiro Beneditino consagrando a ilha ao culto de São Jorge.
Não é original o que hoje vemos como parte do horizonte aquático da Praça de São Marcos. Como num mito do eterno retorno vários templos se edificaram em cima de ruínas de outros. Sobre a modesta e perdida igreja de madeira, que se diz ali existido no século VII, naquele mesmo lugar, outras foram acrescentadas como um imenso palimpsesto de pedra. Terramotos e incêndios foram destruindo a obra do Homem e o que hoje vemos é a última peça desse jogo que permanece incólume à fúria dos elementos. É a fachada da Basílica desenhada pelo célebre Andrea Palladio e, como tantas outras em Veneza, lugar de recolhimento de intemporais quadros de Tintoretto. Se o lugar permanece imune às catástrofes desde o século XV não escapou porém à fúria dos homens e da sua ganância. Também aqui o saque de Napoleão espoliou um dos melhores tesouros da ilha: As Bodas de Caná de Veronese. Antes da praga francesa decorava o monumental refeitório do mosteiro da ilha até que, em 1797, foi saqueado por Napoleão. Hoje está exposto no Louvre com a magnificência de ser a maior pintura da coleção do museu. Nunca os franceses transigiram que fosse devolvida a Veneza. Permanece em Paris como joia roubada durante a ocupação francesa que, além do icónico Veronese, pilhou livros raros, arte sacra, joias mundanas ou consagradas como as que foram esbulhadas da Pala D’Oro da Basílica de São Marcos. Muitos tesouros Venezianos não tiveram a sorte dos Cavalos de São Marcos. A imponente quadriga de bronze, também conhecida por cavalos de Constantino. Mitológicas esculturas cujas deambulações coercivas vaticinaram sempre a queda de Impérios. Os cavalos errantes vindos da Grécia, antes da era Cristã, parece que já andaram por toda a parte. Sempre que foram movidos um Império caiu. Estiveram em Roma e Constantinopla, que soçobraram depois de os terem como troféus. Também Napoleão levou a quadriga de São Marcos para a capital do seu Império, postando-as, com arrogância, em Paris no Arco do Triunfo do Carrossel como sentinelas do Louvre e dos seus tesouros. Com a queda de Napoleão e do seu Império, o Imperador Habsburgo, cujo Império Austríaco no Adriático ia de Veneza até Trieste, e a quem calhara parte dos salvados napoleónicos, porventura querendo contrariar a maldição dos cavalos de bronze, devolveu as esculturas a Veneza. Aí permanecem, no seu lugar da Loggia dei Cavalli, desde o desagravo de Francisco I da Áustria. Os originais na cave e as réplicas no frontispício da Basílica de São Marcos. Sósias no centro de um labirinto tão intrincado, com tantas pontes quantas codas numa partitura barroca, como um jardim de mil bifurcações onde um homem se perde como um leitor que se dissolve no rio imortal de Borges.
Jorge Luís Borges, Atlas, edição da Quetzal
fotografias de Maria Kodama
...
JNAS, Estado Livre de Santa Rita, 22 Fevereiro, 2026.




Sem comentários:
Enviar um comentário
Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.