Foto: Guilherme Figueiredo 2003
...
Segunda-feira. Tomo o banal autocarro a caminho do terminal onde passo o dia burocrático. Ainda a emergir das águas opacas do sono, resgato à luz fluorescente da cabine os fragmentos de uma recordação inquinada pela fealdade do panorama para lá da humidade do vidro azulado. Ontem, num sonho aquático, deleitei-me com a memória do prazer de uma tarde de amor num quarto com as venezianas abertas para o rumor do pátio da esplanada da Ópera. Com a saudade de cálidos entardeceres refulgindo a minha sombra derreada pela paixão da beleza espelhada no mármore dos templos. Com a miragem de San Michele, a ilha dos mortos, com as suas muralhas de osso e pedra sobre a laguna. Uma morte doce adornada pela eternidade da grande Arte? Romantizada. Toma-me a nostalgia da partilha de um Campari enamorado, rindo dos que desfilam na passerelle da Rialto! A chuva a escorrer no vidro temperado com martelo de emergência para quebrar em caso de desespero faz-me sorrir na evocação da lágrima cativa na extasiada adoração do ícone bizantino no altar da Madonna della Salute. Quão distante está a Punta della Dogana! Longe deste miasma maligno de bruteza encardida a caminho da cidade num rochedo que se julga descoberto há seiscentos anos, infelizmente não por Venezianos desenganados a caminho do Oriente. Desfila pela tela do autocarro um panorama de ruínas habitadas, prédios descarnados, ruas soturnas à sombra de abortos urbanísticos. A moldura humana não é melhor. Um povo desfigurado pela obesidade adquirida, de uma fealdade genética sem outro rumo que não seja o de perpetuar a espécie com tais deformidades. Atravessam onde calha. Deitam impropérios guturais às buzinadelas ou às travagens, em cima da passadeira de peões, para onde mergulham com a mesma naturalidade com que atiram lixo para o calhau. De chinelos gastos, de camisa de alças, com roupa surrada. As mulheres, fardadas com leggings, como baleias arrojadas à terra, ostentam a sua gordura na ida à Poupadinha mais próxima comprar sumos espessos de tanto açúcar. Os homens encostados à esquina não são jornaleiros, apenas taberneiros. Nos arrabaldes de uma quimérica capital europeia da cultura não falta rela diversidade na subcultura da prostituição. Jovens envelhecidas sem salvação na estrada esperam à porta de um armazém devoluto por clientes para o broche. Rapazes travestidos dão o cu pela próxima dose de sintética a consumir, ali perto, numa moradia abandonada e tomada pelo vício. Pedintes e indigentes no centro de uma das cidades mais seguras nas palavras do inquilino do Palácio do Governo. Não fazem mal a ninguém, só incomodam e poluem o cartaz turístico. Apesar da hora burguesa há boémios pelas ruas. É o Terror! Sonâmbulos no tremor da demanda do dragão sintético. Não faltam borrachos miserentos com o seu pacote de vinho comprado num supermercado modelo que assegura, economicamente, o Direito Fundamental ao pingo doce da desgraça. Mais discretos são os doutores e empregados de escritório a sair dos cafés, depois do segundo risco da manhã. À porta das masmorras ajuntamento de ciganos locais e em trânsito. Adiante turistas arianos aos magotes para embarcarem num zodíaco e zarparem para a atividade de assediar baleias. Talvez um ou outro tenha um acidente com tubarões para vingar os seus pares cetáceos. Na marginal, obra original do Estado Novo, hoje vandalizada pelos parvenus abrileiros, caixinhas de gelados, um carrossel encardido, e a cópia ofensiva da escadaria da casa Malaparte sobre as falidas Portas do Mar. Junto à esquadra da PSP vegetam clientes regulares cuspidos para as ruas com termo de identidade e residência. De vez em quando há festival de MMA caipira e inter-género a que se pode assistir gratuitamente, sem reserva de bilhete, na plateia do Café Royal. Na paragem do autocarro recomenda-se prudência na saída: os eflúvios de gordura estão por todo o lado. Derramados como lava do lixo que é a principal atividade produtiva desta terra, de tal forma que em sua homenagem foi erigida a pira funerária da Queimadora pelos democratas locais. Nem apetece parar para tomar café. Sigo envergonhado com a certeza de que o paraíso europeu da sustentabilidade, e outras mitomanias compradas por baixo da mesa, é, ainda, e por muito tempo, um calhau atavicamente atrasado, lúgubre, triste, cinzento, deprimente. Ocorre-me a estrofe do poeta : O Melhor desta Terra é o Mar. Salva-se o Mar e o caminho de regresso a casa na carreira de Rabo de Peixe.
...
JNAS, Estado Livre de Santa Rita, 30 de Março, 2026.
.jpg)