É um dos maiores mistérios da existência. Santo Agostinho, nas suas Confissões, perante a demanda do que era o tempo suspirou: «Se ninguém mo perguntar, eu sei; se o quiser explicar a quem me pergunta, já não sei». No princípio havia o Verbo, depois o Verbo fez-se homem e todo o homem tem o seu tempo contado. Só os animais são imortais, porque ignoram o tempo. Aos homens os Deuses dão a luz à nascença e o futuro expande-se na infantil ilusão de que a treva da noite eterna está a anos-luz de nós. A meio caminho, conscientes do que nos resta pela álea da providência, é-nos revelada a verdade: ninguém sabe para onde o tempo vai. Who Nows Where The Time Goes? À interrogação, na voz de Nina Simone, devemos responder com o refrão da mesma canção: I Do Not Count The Time. Ninguém sabe para onde vai. Tempus Fugit Irreparabile. Marguerite Yourcenar, nas suas memórias, confessa o absurdo de moer o tempo quando no fim «como as nuvens no céu vazio, formamo-nos e dissipamo-nos sobre o mesmo fundo de esquecimento». Somos tempo e espaço e interrogamo-nos sempre como aquele influi na matéria física e orgânica deste e de outros mundos. Inevitável a memória de Jorge Luís Borges e dos seus labirintos circulares onde o tempo se repete em eterno retorno. Inolvidável a tese e antítese dos teólogos de Borges, em particular da seita dos monótonos, ou anulares, para quem a «história é um círculo e que nada é que não tenha sido ou não será». A síntese da roda do tempo circular e a fantasia de nos encontrarmos com outro eu noutro tempo no mesmo lugar. Também em Borges a referência a Hobbes que diz a Eternidade ser a quietude do tempo presente. Estamos hoje numa era de relógios atómicos que cronometram a vida planetária com uma sincronização que permite, entre outras comodidades, o GPS e a Internet. O relógio atómico da NASA em dez anos tem um atraso inferior a um microssegundo, o que significa que para verificarmos estar um segundo atrasado precisamos de esperar a eternidade de dez milhões de anos! Amanhã a transição é para o relógio nuclear e interrogamo-nos novamente se este nos aproximará do grande relojoeiro do Universo quando nos lançamos na demanda do bosão de Higgs ou, se preferirmos, da «partícula de Deus», porque diz-se que aquela poalha subatómica está em todo o espaço ao mesmo tempo!
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JNAS, Estado
Livre de Santa Rita, 7 de Dezembro, 2025
