Retiro-me estrategicamente na oportunidade da trégua. Encosto o corpo no pilar na estrema do campo e fico entrincheirado a recuperar de cócoras. Falta-me o ar e pelo corpo torrentes filiformes de suor escorrem-me do torso até aos pés fincados no recolhimento. Vejo-o assestado avançar no meu sentido, arrastando o fardamento desalinhado com o seu andar trôpego a pisar o pano das calças. Aproxima-se, senta-se ao meu lado pergunta-me: «O Senhor sente-se bem?» Estranho o altruísmo e respondo que sim com um silente aceno de cabeça. Com um sorriso idiota volta à carga e verbaliza a interrogação atávica da condição humana: «Para o Senhor qual é o sentido da vida?» Julgo estar num sonho em cima de um palco de teatro do absurdo! A realidade supera sem aviso a ficção e o jovem, cujo nome ignoro, é de carne e osso como eu. Sinto uma fúria a escaldar-me e vontade de o insultar, descarregando todo o meu cinismo, cepticismo, niilismo. Todo o catálogo do escol dos mestres: de Freud a Nietzsche com epílogo no supremo Houellebecq. O filósofo do übermensch pregou que nada possuímos além de metáforas gastas e que as verdades são ilusões de uma moral de mentiras. Não vou responder com essas derivas a quem tem estampado no olhar o vazio de uma página em branco. O cadete não é insolente é apenas um néscio saloio. Responder-lhe com a bruteza de inexistência de sentido da vida, contar-lhe que o mundo é uma coutada onde o homem é o lobo do homem, um eterno estado de bellum omnium contra omnes, seria injusto e inútil. Não compreenderia. É um mancebo ingénuo com ar entre as orelhas vindo dos cerrados das vacas. Não sei o que faz aqui. Veio na ilusão de engrandecer facilmente com truques misteriosos de uns golpes orientais. Também os legionários romanos se alistavam julgando que iam ver o mundo para afinal se quedarem em batalha atrás de batalha. Assim é o mundo: uma incessante e ancestral guerra de todos contra todos com o sentido único e egoísta de sobreviver. A ira pela estupidez da pergunta, pelo despropósito do lugar, pelo fosso que separa a minha idade daquela imberbe existência, foi-se dissipando na nuvem de calor que evolava da transpiração a arrefecer o sangue. Tudo passa, até a arrogância da estupidez ingénua da juventude. A interrogação é universal. A resposta é única e individual. No termo de uma vida de pesquisa, estudo, ensaio e psicanálise, o próprio Freud rendeu-se. Sobre a mesma demanda escreveu com inusitado desalento que a pergunta pelo sentido da vida já foi colocada inúmeras vezes e ainda não obteve e talvez nem sequer admita uma resposta sequer satisfatória. Olho para o rapaz e concluo que é mais jovem ainda do que os meus filhos. Não vou ao ponto da crueldade de convocar Houllebecq e a sua escatologia da decadência inevitável do corpo, da monstruosidade da extensão da luta em sociedade, da descida ao inferno dos outros que minam o caminho elementar da mais pequena partícula efémera de felicidade. Estou sem fôlego. Venho de duas barragens violentas de luta corpo a corpo. Sinto-me indulgente e não ofensivo. O corpo que vocaliza a pergunta numa cabeça falante não seria capaz de processar uma palavra das minhas reflexões. Nem vale a pena. Estará aqui por pouco tempo. Em breve sucumbirá. Seguramente irá desertar. Tem cinto branco e pertence a uma geração alimentada na mentira de tudo ser fácil. Seria muito difícil explicar-lhe que não há sentido no viver. Que a vida é uma luta entre os Deuses Eros e Tánatos nas mãos de quem somos bonecos de trapos. Uma luta sempiterna entre o instinto vital e o instinto destrutivo presente na espécie humana desde que emergiu do lodo. Essa luta é a essência da vida. Fumegante e ainda a resfolegar enxugo a fronte. Uma linha de sangue mancha a manga do judogi. Tenho no sobrolho um lanho. Os músculos inertes pelo esforço. Na jugular o sangue bate com estrondo. A cicatriz da lesão no ombro a latejar. No randori anterior uma derrota inelutável e um empate inesperado noutra frente. Num sorriso recordo o dia em que deixei inconsciente com um estrangulamento o “urso” que me esmagou e com quem perdi mil vezes. No mesmo instante ocorre-me o contentamento de ter presente o empate há instantes com quem há menos de um ano me arrancara o úmero do seu lugar. Homo Homini Lupus, diz a filosofia. A realidade é tão mais térrea.«A vida é luta.» É só o que respondo. Digo-o, tendo presente que o tatami é metáfora dessa regra e que tem as suas regras na grande ilusão da domesticação da besta humana. Duvido que o jovem compreenda que o sentido não é a prevalência do mais forte, mas daquele que nunca desiste de lutar contra a sua própria natureza. Tudo passa. Até a ignorância estúpida dos verdes anos. No outono da vida fica tatuada a condescendência, onde antes imperava a primaveril arrogância da eternidade.
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JNAS, Estado Livre de Santa Rita, 5 Fevereiro, 2026
Freud – O Mal-Estar na Civilização – Ed. Relógio D’ Água
Nietzsche – Acerca da Verdade e da Mentira no Sentido Extra Moral – Ed. Companhia das Ilhas

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