domingo, 9 de novembro de 2025

Stolpersteine - As Pedras da Memória

 

 
Depois da queda do Muro de Berlim, a cidade e o mundo viram nas pedras derrubadas e nas ruínas do muro o sinal do fim da História. Para que a Memória não fosse triturada pelos reluzentes edifícios de pós-modernidade que ascendiam nos céus de Berlim, faiscantes troncos de aço escovado com brilhantes fachadas de vidro temperado, houve a urgência de fincar os pés na terra com a recordação perene de outras vidas. Pela cidade de Berlim, entre pedaços museológicos do muro que a dividiu em dois blocos, quem estiver atento verá linhas que hoje marcam o lugar antes barrado pelo muro e intrigantes pedras douradas espalhadas pela calçada sem um alinhamento lógico. A cada dia 9 de Novembro, verá com perplexidade alguns berlinenses ajoelhados ou sentados no chão, em reverencial silêncio, a lavar e a polir tais quadrados de calçada dourada! As Stolpersteine são pedras de calçada em latão com 10cmX10cm, com um nome gravado e «o essencial da vida fenecida», como resumiu Jorge Luís Borges, servindo de inscrição sepulcral de pessoas de quem apenas sobrou o nome. Diz a tradição Judaica que uma vez esquecido o nome a pessoa entra no oblívio sem retorno. Gunter Demnig, artista alemão, quis imortalizar os nomes das vítimas da longa noite nazi que foram levadas da cidade para se transformarem em cinzas nos fornos de cremação industrial de Auschwitz e de outros infames campos de processamento da morte. Hoje as Stolpersteine estão espalhadas pela cidade de Berlim na forma de pedras de latão encaixadas nos passeios e nas portarias dos prédios onde habitavam, ou tinham o seu negócio ou trabalho, concretas e individuais pessoas que foram brutalizadas e mortas pelos nazis. A ideia era gravar-lhes o nome no chão para que nunca fossem esquecidas e perdidas nos números abstratos das vítimas da Shoa. O projecto de Gunter Demnig começou em 1996 na Oranienstrasse, no outrora efervescente bairro judeu de Berlim com a sua Sinagoga monumental, com as primeiras pedras de um projeto à margem da lei, sem licenças nem autorização de ninguém. Uma instalação libertária e individual do artista que escolheu a forma da pedra de calçada de Berlim numa profunda subliminaridade às pedras que foram arrancadas e atiradas às lojas e estabelecimentos de judeus na noite de 9 de Novembro de 1938. Na funesta Kristallnacht de 1938 bandos das SA – Sturmabteilungen, as tropas de assalto dos camisas castanhas nazis e da Juventude Hitleriana lideraram a populaça num festim de destruição, caça e morte. Em Berlim, e noutras cidades do Reich, foram incendiadas Sinagogas, saqueadas casas habitadas por judeus, apedrejadas lojas de judeus, profanados cemitérios judaicos e no saldo final estima-se que foram linchadas 91 pessoas. Os bombeiros tiveram ordem para deixar arder e a polícia para não interferir com a vontade do povo. Noite de Cristal assim celebrada pelos nazis e seus entusiastas pelos rastos de vidros estilhaçados de todas as lojas e negócios de judeus marcadas com suásticas e destruídas à pedrada com pedras de calçada. Hoje as Stolpersteine evocam as vítimas do holocausto em pedras de latão com a inscrição «Aqui Viveu», seguida do nome da pessoa em destaque, data e local do nascimento, o campo de concentração para onde foi sequestrada e, por fim, a data da sua morte. O projeto de Gunter Demnig começou com 51 pedras. Hoje, em Berlim, são mais de 10 mil e em toda a Europa aproximam-se de 120 mil, naquele que é o maior memorial descentralizado do mundo, lembrando todos os dias a quem passa um nome de alguém chacinado pelos nazis. Uma instalação montada na clandestinidade é hoje celebrada pelos berlinenses que puxam o lustro das pedras de latão polindo-as com reverência a cada dia 9 de Novembro em memória do nome inscrito. Também há nomes portugueses nesses memoriais. Não porque tivessem sido enviados para os campos de concentração por Portugal, pois Salazar nunca seguiu essa barbárie, nem foi vassalo nazi como outros em Espanha, França, Itália, mas sim pelo infortúnio de serem judeus fora de Portugal, expatriados em terras onde se julgavam a salvo. Como Tomás Vieira – apelido em Portugal de consabidas raízes judaicas – um algarvio que emigrara com mulher e filhas para Paris, a capital da pátria da Liberdade, vivendo em paz até 1944, quando, na sua mercearia onde trabalhava, foi preso pelos franceses e entregue aos alemães, vindo a morrer na Áustria no campo de Mauthausen. Na freguesia de Paderne, nestes tempos em que a escuridão se adensa pela ameaça de novas submissões, Tomás Vieira terá uma Stolpersteine à porta da casa onde nasceu, a juntar à imensa rede europeia que lembra o dito judeu: uma pessoa só é esquecida quando o seu nome se perde. 
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JNAS, Estado Livre de Santa Rita, 9 Novembro, 2025